Desabafo

Bedeira [RIP]

Desabafo

Mensagempor Bedeira [RIP] » quarta jun 18, 2003 3:14 am

Muitos de vós "desabafam" em poemas... eu desabafo em narração porque não tenho jeito nenhum para poemas...

Embora tente (com muito custo acreditem) sobreviver a mais um dia, sinto-me desfalecer, sinto-me fraco, sinto-me inadaptado a este estilo de vida.

Neste momento sinto-me um incompreendido, um gajo que está prestes a saborear a calma extrema. A sociedade transformou-me numa ovelha negra, meus pais cagam para mim, os meus amigos só falam comigo quando precisam de boleia para algum lugar... nada corre bem, o pouco que tinha consumi até a exaustão... já não consigo sorrir...
Por vezes olho para os velhinhos e pergunto-me como é que eles chegaram até aquela idade, como é que ultrapassaram obstáculo atrás de obstáculo, como é que suportaram o peso do psicológico a debater-se sobre eles, como é que encontraram porta para passar para a outra margem. Não acredito que a vida seja mais fácil para uns do que para outros, cada um tem as suas dificuldades, muitas delas cortar a respiração. O facto é que estão à minha frente, bem vivos e saudáveis.
Estarei eu a reagir de maneira negativa perante as situações que se me atravessam? ou as minhas emoções deixaram de responder aos estímulos gerados dentro dum orgão tão sólido como a sociedade?
O Homem é as suas emoções, emoções essas que saem disparadas para nos distorcer a realidade e bloquear-nos a razão. Mas existem alguns, poucos, que gerindo as suas próprias emoções e as dos outros talvez mais próximos. Na verdade, invejo todos os que conseguem fugir ao inevitável.

Embora ache que o que eu acabei de escrever não tem sentido nenhum, acho justo dizer que desabafei, deitei para a rua alguns pensamentos que tenho e sinceramente não sei porque estou a escrever isto... apetece-me deitar para fora algo que viveu sempre dentro de mim e que me faz desesperar. O que sinto que é o problema deste meu desabafo é que deito para fora pensamentos misturados que nada pouco ou nada têm a ver um com outro...

.....

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Amphion
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Tristeza

Mensagempor Amphion » quarta jun 18, 2003 11:04 pm

Olá Bedeira!

Só tens a ganhar em seguir o teu instinto, que neste caso ditou que partilhasses o que te vai na alma para os membros do fórum. Da minha parte sinto-me honrado por tal. Não querendo transformar este post numa consulta de psicólogo, quero sim deixar-te aquilo que senti e penso sobre o que disseste.

Primeiro que tudo, o mais superficial: a narração pode ser tão bela ou melhor que a poesia. Ambos têm a sua força. A poesia vive do que "está por trás", do subentendido, da interpretação subjectiva e da força das poucas palavras, encadeadas em harmonia. A narração é a força bruta da emoção, dissecada de modo detalhado e auto-explicada na extensão do texto, ornamentado com mil e um pormenores que enriquecem a paisagem que vamos imaginando. Assim sendo, embora a poesia possa não ser o teu forte, parece que a narrativa está em forma! ;-)

Passando ao que sentes, na minha humilde opinião, um incompreendido não poderá saborear a calma extrema, pois nós tendemos a projectar nos outros aquilo que pensam de nós. Muitas vezes somos nós que não nos compreendemos e que nos tornamos inseguros pelas opções contra-sociedade que tomamos, insegurança essa essencialmente apoiada num fraco sentimento de auto-coerência da nossa parte, pois estamos constantemente a remar contra muita coisa ao mesmo tempo, aumentando o número de obstáculos que surgem. No entanto, uma coisa é certa: se canalizares a tua energia num sentido de encontrar o teu lugar próprio na ordem das coisas que te rodeiam, decerto serás menos abalável pelos contratempos.

O mais importante, sem dúvida, é encontrar o pilar que sustenta toda a tristeza que às vezes assalta o espírito, e teima em não querer sair. Sem este pilar, tudo o que está por cima cai e torna-se quase insignificante. Com o pilar, todo o prisma pelo qual vemos as coisas, e que condiciona a nossa maneira de agir, vai alterar negativamente tudo o que nos rodeia.

Tens que ter atenção a uma noção perfeitamente errada que apresentas, passo a citar:

"O Homem é as suas emoções, emoções essas que saem disparadas para nos distorcer a realidade e bloquear-nos a razão."

Recomendo-te que leias o livro "O Erro de Déscartes" do famoso neurocirurgião português António Damásio, onde, a partir do estudo de vários doentes com lesões em áreas especificas do cérebro, foi possível constatar que a própria ausência de emoções tolda e bloqueia a capacidade de tomada de decisões coerentes e correctas. No fundo, a emoção também se deveria chamar razão, pois tanto a razão como a emoção participam no projecto que se chama Homem, e ambos são absolutamente essenciais para a movimentação do ser humano na nossa sociedade. Como em tudo, um excesso de razão torna a pessoa fria, calculista e desinteressada, tal como o excesso de emoção conduz a becos sem saída e torna tudo improdutivo e doloroso. Assim, o homem não é só as suas emoções, o homem é uma rede muito complexa de opiniões objectivas, informação, emoções, etc... que participam em tudo o que fazemos de forma integrada. Assim, o facto de sentir não é negativo, mas o sentir errado já poderá ser prejudicial. Mas o que é sentir errado? Isso ninguém pode julgar a não ser o próprio e tu notas perfeitamente que achas que estás a sentir errado, ou o teu desabafo não teria sido escrito.

Assim, o meu sincero conselho é o de, em vez de olhares para a sociedade e veres rosas em todo lado, pondo em causa os valores que te são naturais, pondo em causa o teu estilo de vida, pois achas que são os responsáveis pelo mal, volta-te pra dentro de ti, e analisa-te. É fácil seguir a corrente e entrar num engano, suportado pela maioria que se chama "sociedade", e embarcar nos circulos viciosos da futilidade. Mas nem sempre o mais fácil é o mais recompensador. Tudo depende do que se passa aí dentro de ti, e só tu é que sabes. A questão é se tens a coragem de te encontrares contigo mesmo e observares-te como se estivesses de fora. É como que uma barreira invísivel e opaca (desculpem a antítese) que nos cega permanentemente e nos faz questionar constantemente se estaremos certos, se estaremos a ser nós.

Imagina um rio e o seu curso natural. Existem centenas de barcos a descer o rio. Um deles, a sociedade, é um barco relativamente grande, luxuoso, embora de construção duvidosa (mascarada pelo luxo dos acabamentos) mas que está absolutamente sobrelotado, sufocado e prestes a afundar-se com o peso de tanta gente. Depois existem vários barcos que remam contra o curso natural do rio. Julgam-se corajosos pois são diferentes pelo contra. No entanto, mal sabem que o rio é gigantesco e nunca terão forças para chegar ao topo da montanha onde este começa. Existem depois, curiosamente, um número infinito de pequenos barcos, sólido e simples, que seguem naturalmente o rio, guardando uma pequena distância necessária de segurança do barco que está cheio, mas sempre interagindo salutarmente com este. Este barco simples só leva uma pessoa, pois está mesmo feito à medida para ela. Permite um trajecto até à foz que, apesar de dar muito trabalho, pois é necessário proceder sozinho a toda a sua manutenção, nos oferece uma viagem segura, produtiva, desafogada e, acima de tudo, verdadeira!

Pensa nisto...

Esperando ter ajudado um pouco...

Abraço

Bem hajam!

Bedeira [RIP]

Mensagempor Bedeira [RIP] » quinta jun 19, 2003 4:19 pm

Antes de mais queria agradecer-te por não só teres dado a tua opinião como também teres dedicado algum tempo a dá-la... ao sentires-te honrado pelo meu desabafo, sinto-me eu honrado pela veracidade da tua resposta.

Eu sempre fui um turbilhão de emoções, mas tive sempre cuidado na maneira de os libertar, um desses exemplos é o facto de eu culpar a sociedade pela maneira que me sinto e sou. Dou-te toda a razão no aspecto de olhar para dentro me mim e vêr-me como eu sou. Acho que o que tu queres dizer é que eu devo primeiro conhecer-me bem antes de tomar determinada posição (neste caso, a favor da sociedade ou contra ela). Sei que tens razão, mas saber o porquê de eu ter determinada reacção a certas situações não é tarefa fácil de apurar. Tu como já deves ter alguma experiência de vida deverás concordar.

Queria também deixar assente que eu não sou contra a sociedade, que eu não tento remar contra a corrente (seguindo o raciocínio do teu exemplo), apenas não concordo em determinados valores por ela instituídos (estão presentes na minha anterior mensagem: "Sociedade: Bendita ou Maldita?"). Mas eu não deixo de concordar inteiramente na tua opinião.

Em relação ao livro que me proposseste, eu ainda não tive oportunidade de o ler, mas é acto que irei fazer brevemente pois já ouvi falar muito nessa obra.

Para concluir gostaria de dizer que gostei do teu conselho, pois é isso que sinto que preciso, mas peço-te desde já para não pensares nas minhas mensagens como forma de terapia psicológica pois não tem nada a ver. Apenas deposito desabafos neste forum, não só pela confiança que tenho por voçês, porque também por um lado eu sou como vós, mas também porque também sinto que posso ser aceite no vosso meio recebendo opiniões (mesmo contraditórias), sugestões e conselhos.

Por favor não tenham a noção errada. Eu não quero transformar isto em consultas psiquiatricas e aposto que voçês também não. Apenas quero trocar ideias, ideologias e opiniões em relação a determinados assuntos talvez mais "intimos".

Fiquem bem!

lagrimas666 [RIP]

Mensagempor lagrimas666 [RIP] » quarta abr 11, 2007 12:54 pm

anda para junto de mim tiago............ :cry:

lagrimas666 [RIP]

Mensagempor lagrimas666 [RIP] » quinta abr 19, 2007 1:52 pm

"a uma voz de sempre, que chama por mim....para que eu lembre que a noite tem fim..."sintome longe de mim...........ja nao kero mais..... :(

YX [RIP]

Mensagempor YX [RIP] » quinta abr 19, 2007 2:05 pm

Para sempre, enfim. Uma dor sem fim. Esguicho. Morro.


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