Bem, o texto que escrevi contêm um pequeno resumo e conclusões do filme... se ainda não o viram (e têm pretensões de o verem)... se calhar é melhor não o lerem.
Timothy Treadwell, um jovem "activista" apaixonado por ursos pardos aventurou-se durante 13 verões numa zona remota no Alasca, com o intuíto de proteger, viver (e ser!) um dos ursos ... acabando por cruzar uma barreira que não pode ser cruzada: a que separa o homem do animal selvagem. A visão que ele tem da vida selvagem é, a meu ver, patética (e o realizador também o critica por isso): todo o choque e perturbação geradas ao descobrir que os ursos acabavam por comer os ursos-bebés quando o alimento escasseava, levam-me a crer que Tim tinha uma visão humanizada da natureza (apesar de consciente que qualquer um dos ursos o poderia matar, despedaçar e comer num instante). O que me supreendeu neste indíviduo foi a sua coragem (foda-se , não é qualquer que se aproxima assim de um urso pardo, um dos maiores predadores do planeta) e a sua determinação (aliada um pouco, a meu ver, a paranóia) em proteger os seus doces ursos. Resta uma pergunta: ao adoptar este modo de vida .. que impacto teve na dita protecção dos ursos? A meu ver, ao ir viver para junto dos ursos, acabou por satisfazer mais as suas necessidades do que as necessidades dos ursos. Sim, ao gravar mais de 100 horas de imagens, revelando a vida e comportamento do Urso no seu habitat natural, acabou por tornar útil a sua estadia junto destes. Mas ao longo do documentário verificamos que muito mais que proteger os ursos .. ele deseja ser um deles: o que prova que um dos grandes objetivos do refúgio no Alasca não tem propiamente a ver com o bem-estar dos ursos, mas com as suas própias convicções e necessidades (incluindo o ódio crescente, durante os 13 anos, pela civilização). Aliás o documentário é sobre isto mesmo: não propiamente sobre a vida dos Ursos Pardos .. mas sim sobre a vida de um Homem que desejou quebrar a barreira "homem-animal selvagem" (tanto tentando tornar-se selvagem .. como também tentando humanizar a besta) e que acabou por aprender da pior maneira que esta não pode ser quebrada. Uma citação de Herzog resume também a minha opinião :
"O que me inquieta, é que em todos os focinhos de todos os ursos
que Treadwell filmou, não descobri nenhum parentesco, nenhum entendimento, nenhuma clemência. Vejo só a impressionante
indiferença da natureza. Para mim, não existe essa tal coisa
do mundo secreto dos ursos. E este olhar fixo e vazio mostra
apenas um interesse meio-entediado em comida, mas para Timothy Treadwell, este urso era um amigo, um salvador..."
Cinema - "Grizzly Man"
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Ermo [RIP]
Cinema - "Grizzly Man"
Última edição por Ermo [RIP] em sábado fev 25, 2006 1:40 am, editado 1 vez no total.
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Ermo [RIP]
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puscifer [RIP]
Acho que fizeste um bom resumo. Vi isso há uns tempos e foi daqueles docs penosos de ver. A perspectiva do Herzog é isenta e num filme destes era facil ir por outro lado.. talvez inadvertidamente tenha criado mais polémica assim (10 paginas no imdb? damm..). Embora se ele fosse por outra perspectiva na minha opinião não tinha filme, por isso foi win-win. Gostei bastante de ver que sem o Herzog estabelecer nenhuma relação entre a óbvia misantropia da 'personagem' e o fundamentalismo de certos movimentos ecologistas, ela estivesse bastante patente 'in the back of my mind' enquanto o via.
<offtopic>Incident at Loch Ness, anyone? :]>
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Ermo [RIP]
Por acaso a palavra "penoso" define bem o documentário. Aliás "pertubador" ainda define melhor. O trailler enganou-me ... dá a ideia que é um documentário sobre um ser humano altruísta, que sacrifica a sua vida, indo viver para a beira dos ursinhos, para os proteger ... quando o filme é sobre alguém "doente", que procura a sua própia "cura". O Herzog teve realmente uma posição muito interessante ... na globalidade isenta, mas nuns pontos pôs-se "ao lado" do protagonista e noutros criticou-o, sem rodeios. Felizmente, digo eu, ele não incluiu os ultimos momentos de vida dos dois "bear-friends" ... mas as reacções e descrições são suficientemente "desagradáveis".
Em relação a outro comentário do Herzog, com o qual absolutamente concordo ... tendo em conta o própio documentário:
"Ele (Tim) parece ignorar o facto de que na natureza há predadores. Eu acredito que o denominador comum no universo não é a harmonia, mas o caos, hostilidade e assassínio."
Em relação a outro comentário do Herzog, com o qual absolutamente concordo ... tendo em conta o própio documentário:
"Ele (Tim) parece ignorar o facto de que na natureza há predadores. Eu acredito que o denominador comum no universo não é a harmonia, mas o caos, hostilidade e assassínio."
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