O problema do Black Metal - J.L. Peixoto
Enviado: sexta nov 19, 2004 7:57 pm
"Like Heavy Metal Falling From The Skies" - O Problema do Black Metal
José Luís Peixoto
" Em algum momento, durante um período maior ou menor, quase todos os géneros musicais estiveram na moda e dessa forma foram legitimados socialmente, tornando-se reconhecidos por um público mais vasto e tornando-se parte de um património cultural aceite pela sociedade. Qualquer pessoa que tenha uma cultura média é capaz de dizer o nome de pelo menos uma banda punk, de uma banda de heavy metal, ou de identificar os Sisters of Mercy com a génese do movimento gótico. No entanto, há géneros musicais que nunca, nem por um único instante estiveram na moda. É esse o caso do black metal. Como qualquer outra pessoa, parece-me que os rótulos são simplificações de algo que, tantas vezes, não é simples. Com frequência, essas simplificações são negativas, reduzem a precoceitos o que merecia uma abordagem livre. No entanto, é também vilgar encontrar bandas que, em entrevistas , recusam rótulos e que, ao mesmo tempo, fazem música que encaixa precisamente em todos os lugares-comuns de determinado género. Se uma banda não quer ser associada a certo género, não deveria tocar música que se confunde com esse género. Não acredito que haja nenhum drama na classificação dos géneros musicais. Neste momento, parece-me que o black metal é um género nitidamente autónomo. O black metal é inconfundível. A distância que o separa do heavy metal clássico é a mesma que separa este do rock and roll. O black metal tem características própias. Possui uma identidade. No entanto, as pessoas que têm uma cultura musical dita "normal", que nunca saíram dos trilhos daquilo que passa na televisão ou do que passa normalmente nas rádios, não têm nenhuma oportunidade de chegar ao black metal. Essa maioria de pessoas não sabe e nunca poderá saber o nome de uma única banda de black metal. Aqueles que se interessam por esse género de metal são necessariamente os que sentem curiosidade, que procuram para lá daquilo que lhes é oferecido e que vão encontrar respostas entre as sombras, entre o que a maioria das pessoas desconhece e que nunca chega a perceber o que desconhece. Quem ouve black metal não precisa de muito tempo para entender que nunca poderá ouvir música de que gosta em lugares onde estejam muitas pessoas reunidas. No trabalho, tomá-lo-iam como louco. Em família, apelariam ao seu bom senso para que desligasse a música imediatamente. Mesmo no carro, em cada semáforo, todos os outros condutores ficam especados a olhar porque nunca ouviram nada assim. É por isso que, normalmente, quem ouve black metal sente essa escolha como um segredo impartilhável e, dentro desso mesmo segredo, sabe com uma certeza profunda que essa incapacidade não é uma característica do black metal, mas sim da sociedade que o rejeita. "
Rock Sound nº 22
José Luís Peixoto
" Em algum momento, durante um período maior ou menor, quase todos os géneros musicais estiveram na moda e dessa forma foram legitimados socialmente, tornando-se reconhecidos por um público mais vasto e tornando-se parte de um património cultural aceite pela sociedade. Qualquer pessoa que tenha uma cultura média é capaz de dizer o nome de pelo menos uma banda punk, de uma banda de heavy metal, ou de identificar os Sisters of Mercy com a génese do movimento gótico. No entanto, há géneros musicais que nunca, nem por um único instante estiveram na moda. É esse o caso do black metal. Como qualquer outra pessoa, parece-me que os rótulos são simplificações de algo que, tantas vezes, não é simples. Com frequência, essas simplificações são negativas, reduzem a precoceitos o que merecia uma abordagem livre. No entanto, é também vilgar encontrar bandas que, em entrevistas , recusam rótulos e que, ao mesmo tempo, fazem música que encaixa precisamente em todos os lugares-comuns de determinado género. Se uma banda não quer ser associada a certo género, não deveria tocar música que se confunde com esse género. Não acredito que haja nenhum drama na classificação dos géneros musicais. Neste momento, parece-me que o black metal é um género nitidamente autónomo. O black metal é inconfundível. A distância que o separa do heavy metal clássico é a mesma que separa este do rock and roll. O black metal tem características própias. Possui uma identidade. No entanto, as pessoas que têm uma cultura musical dita "normal", que nunca saíram dos trilhos daquilo que passa na televisão ou do que passa normalmente nas rádios, não têm nenhuma oportunidade de chegar ao black metal. Essa maioria de pessoas não sabe e nunca poderá saber o nome de uma única banda de black metal. Aqueles que se interessam por esse género de metal são necessariamente os que sentem curiosidade, que procuram para lá daquilo que lhes é oferecido e que vão encontrar respostas entre as sombras, entre o que a maioria das pessoas desconhece e que nunca chega a perceber o que desconhece. Quem ouve black metal não precisa de muito tempo para entender que nunca poderá ouvir música de que gosta em lugares onde estejam muitas pessoas reunidas. No trabalho, tomá-lo-iam como louco. Em família, apelariam ao seu bom senso para que desligasse a música imediatamente. Mesmo no carro, em cada semáforo, todos os outros condutores ficam especados a olhar porque nunca ouviram nada assim. É por isso que, normalmente, quem ouve black metal sente essa escolha como um segredo impartilhável e, dentro desso mesmo segredo, sabe com uma certeza profunda que essa incapacidade não é uma característica do black metal, mas sim da sociedade que o rejeita. "
Rock Sound nº 22