Aquele sentimento...

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Psychoneurosis
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Psychoneurosis » sexta jan 09, 2026 1:08 pm

Eu até acho normal e natural que os putos tenham cada vez melhores notas, cada vez têm mais formas e ferramentas para chegar a esses sucessos.
Agora isso não faz deles mais capacitados de cultura geral, nem tão pouco das "coisas" do dia a dia, acho que estão cada vez mais atados, no que às tarefas do dia a dia dizem respeito enquanto jovens adultos / adultos.
É exasperante às vezes ver e ouvir certas coisas entre eles e colocar-me com a idade deles.
Há lá coisa mais bonita que o Sporting Clube de Portugal!
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor aetheria » sexta jan 09, 2026 1:21 pm

Psychoneurosis Escreveu:Eu até acho normal e natural que os putos tenham cada vez melhores notas, cada vez têm mais formas e ferramentas para chegar a esses sucessos.


isso também eu acho. O problema é, exatamente, é que não usam essas ferramentas. Nem com elas na mão! achas que fazem pesquisas?
E nem imaginas o filme que foi com vários miúdos, com 13 anos, que não sabiam como me enviar uma imagem por email :roll:
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Psychoneurosis » sexta jan 09, 2026 1:35 pm

Eles sabem ou sabiam o que é um email ?

Eu até acho que se deva procurar tentar saber ou pensar , sem se estar a usar constantemente telemóveis e afins. Ainda aqui a atrasado acho que falava aqui do exercício que me proponho de quando não me lembro de algo, não ir logo ao Google, de forma a exercitar o cérebro.
Mas sim, ela têm 1001 ferramentas à sua disposição para pelo menos, não serem tão atados.
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor aetheria » sexta jan 09, 2026 1:56 pm

Falo de usar o google como quem usava, no passado, uma enciclopédia ou um dicionário. Não nascemos ensinados, aprendemos. Se não sabemos uma coisa, pesquisamo-la. Os motores de busca tornaram foi tudo mais fácil e imediato (a IA é já outra conversa, pois agora ela pesquisa por nós e reúne informação, mais fácil ainda!... e o que isso fará aos adultos daqui a 20 anos?)
Will find out! espero que ainda exista o MU para falarmos disso :mrgreen:
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Vooder » sexta jan 09, 2026 2:24 pm

Já que estamos a falar de alunos... eu este ano voltei à escola... num mestrado.
Enquanto antes era o mais novo ou o dos mais novos das turmas, agora ou sou o mais velho ou dos mais velhos :cry:
Pormenor à parte, apanhei uma turma saída da licenciatura (a maioria deve ter entre os 22 e 25 +/-) não estão bem a ver a diferença do que era qd tirei a minha.
Metade da turma ou quase ao telemóvel, uns nas redes sociais, outros no betclick, (os professores aqui são culpados), faz-se uma pergunta (mesmo que seja básica) só para ver se há interacção, silêncio ensurdecedor, (eles por e simplesmente não sabem e nem querem saber). Às vezes tenho de ser eu (que até sou calado e introvertido) a quebrar o gelo com pena dos professores. Quando fazem uma pergunta olham logo para mim na esperança que pelo menos eu responda... :?

Um dos profs até é comentador televisivo... As aulas são penosas, ou então apanhei uma turma péssima, mas acho que não. Só aguardam o raio da frequência para marrar, ou o trabalho para o chatgpt fazer...
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Blackadder » sexta jan 09, 2026 6:55 pm

Porra, tenho mesmo de aprender que NINGUÉM QUER SABER e começar a escrever menos. Mas tenho desculpa! É um sintoma — e foi preciso chegar aos 36 para ter um diagnóstico oficial!

Spoiler: Mostrar
Psychoneurosis Escreveu:Os putos hoje em dia têm uma "formação" diferente.
Se é melhor ou pior não sei, mas é diferente. Ainda há dias estava a falar com um rapaz no trabalho , nos seus 25 anos e ele perguntou-me o que era o NIF, estamos a falar de alguém que trabalha e que apresenta o IRS.
E não sabem desenrascar-se na maioria dos casos, nem usar a força, não sabem fazer uma mudança de casa, como carregar um móvel, fruto claramente, de nunca terem jogado Tetris.


É natural, o mundo está diferente. Mas percebo o que querias dizer.

Acho que dá para os dois lados: há muita malta da minha idade (36) e mais nova super-desenrascada e proactiva, mas também existe o extremo oposto. Não sei se a coisa está a melhorar ou a piorar — é natural que os maus exemplos sobressaiam sempre mais —, mas o que é triste, e infelizmente não se aplica só aos jovens, é que hoje em dia temos muito mais acesso à informação — de uma forma quase imensurável —, e muitas vezes não sabemos tirar partido disso, nem queremos saber. Acho que a IA só vai piorar isso. É triste. Nunca "soubemos" tão pouco sobre tanta coisa, como disse o outro.

Brunhu Escreveu: Temos uma geração mais letrada que nunca (…)


Será que temos? Ou temos mais pessoas com um canudo? A parte boa é que as taxas de analfabetismo baixaram. E sim, se calhar temos mais gente formada, que sabe o básico ou talvez um pouco mais que isso — e isso é óptimo. Também tivemos um PM perito em martelar os números e dar graus académicos a toda a gente para ficarmos bem na fotografia para a Europa.

Mas não sei se, pegando numa pessoa com uma licenciatura de há 50 anos e noutra com um mestrado ou até mesmo um doutoramento de agora*, em média, se os mais antigos não tinha um conhecimento muito mais alargado. Basta ver o tipo de livros que os adolescentes liam há 100 ou 50 anos, e o que os adultos lêem agora (quando lêem).

* ou até mesmo em alguém que não tirou curso nenhum mas procurou aprender, ler, encontrar repostas, sejam estas práticas para a sua profissão ou mais "intelectuais" — haverá sempre excepções e desvios-padrão, naturalmente —

Outro dos grandes problemas do nosso tempo é achar que o segredo está na especialização, que um engenheiro só tem de saber muito da sua área e da sua especialização específica dentro dessa área. Isso é uma estupidez de todo o tamanho que só vai formar "engenheiros", no sentido depreciativo que às vezes se chama aos chico-espertos do desenrasca.

Um dos grandes problemas do nosso sistema de ensino, e da sociedade no geral, é não se estimular o pensamento crítico. Estamos formatados para engolir e vomitar "factos". Coisas como o pensamento crítico (que é muito mais do que os idiotas do mundo empresarial e da WebsSummit chamam problem solving) e a criatividade foram completamente escorraçadas dos domínios educativos e profissionais precisamente porque não são bons para essa lógica de linhas de montagem e hierarquias verticais.

É algo em que penso muito — e um flagelo de que não me excluo —, e me entristece bastante. Se não me desse já por derrotado, preocupar-me-ia bastante em relação ao nosso futuro enquanto sociedade, mas por uma questão de auto-preservação já me estou a cagar.

Vooder Escreveu: Nesta altura tenho a certeza que descontando a personalidade de cada um, a educação que os pais lhe dão é mesmo muito importante, e posso chegar à conclusão que os jovens são como são em grande parte devido a ela. E que sim, muitos pais são piores do que os filhos.


Isto.
É uma coisa um pouco arrogante de se dizer: mas às vezes parece que só quem não devia é que tem filhos. Obviamente que não quero um mundo assim tão distópico, e injusto(?), mas muitas vezes quase acho que se devia ter de passar um teste qualquer antes de se poder ter filhos ou votar.

Vooder Escreveu:O meu vê zero televisão.


Não o censuro. Só dá merda. Mesmo as notícias, 90% é palha e repetições — temos bons podcasts de comentário e, surpreendentemente, alguns bons jornalistas jovens. A TV era uma coisa até às nossas gerações. Hoje em dia tudo se passa na internet.

Vooder Escreveu:Acho que tem tendência a gostar de power metal.


Isto, sim, é grave. Mandava-o para tropa.

aetheria Escreveu:mas com com outras na casa dos trinta, saem menos, bebem e fumam menos (isto aqui não é mau, naturalmente).


Tenho 36 anos, e acho que a minha geração — mais cinco anos, menos cinco anos, ou perto disso —, terá sido a última em que, tirando aqueles miúdos particularmente ajuizados, o normal era sermos uma cambada de bêbedos e "drógrados" de diferentes níveis, que desde o momento em que acordam até ao momento em que se deitam só pensam em fazer um levantamento científico do que o próximo — consoante as preferências — tem entre as pernas.

Relativamente aos consumos: no geral acho óptimo que os miúdos não estejam interessados. Apesar de também achar que experimentar as coisas, com a moderação e o juízo possíveis, e em doses minimamente razoáveis, às vezes faz mais bem que mal — é uma aprendizagem e um momento formativo.

Há pouco tempo, fiquei muito surpreendido por ter estado num espaço DIY, punk, etc., onde é "suposto" ver todo o tipo de drogas e malta muito perdida, e ter reparado que, nessa noite, as idades dos putos (passe o preconceito, da António Arroio) nem aos 20 deviam chegar, e praticamente NENHUM estava a beber ou a fumar — tabaco, sequer. Se calhar eram demasiado novos para já terem começado, não sei, mas eu com a idade deles não vou dizer o que é que já tinha feito…

Por outro lado, acho que a coisa vai de extremos, e os jovens que se interessam por drogas, por exemplo, ou que estão mais horny e são suficientemente desinibidos para explorar, começam a esticar, e a esticar mais, a corda muito cedo — por algum motivo a sida está a aumentar.

Vooder Escreveu:A geração X foi a última que se aproveitou, de resto tem sido sempre a descer. :lol:


Apesar de, na prática, ser millennial ('89), espiritualmente sou X. :D E acho que é mesmo uma geração que, entre o que prometia (e o que lhes foi prometido) e o que acabou por acontecer, é muito interessante. Um tempo de onde resultaram alguns dos discos, livros, ideias, e cultura mais e menos popular, mais interessantes. Mas também tenho noção que provavelmente se pode dizer isso de todas, e estou só agarrado aquela que me diz mais.

Psychoneurosis Escreveu:Os putos hoje em dia são mais fit e até se preocupam mais com o corpo e com a saúde provavelmente...


Resta aferir se o fazem pelos motivos certos, e com objectivos, rotinas e expectativas razoáveis e saudáveis. Há uma obsessão pela optimização — Andrew Huberman, estou a falar contigo, meu cabrão — que acaba por se tornar contra-produtiva.

Mas sim, diria que, na generalidade, há uma maior consciência, literacia e interesse na saúde e no bem-estar — e muita, muiiiiiiiita desinformação, e algumas práticas que, se eu mandasse, juro que proibia, e era tudo considerado scam e desinformação nas redes sociais; chamem-me ditador, chamem o que quiserem, mas astrologias e reikis ia tudo com os porcos.

Esta preocupação com a saúde é espetacular, porque um dos grandes problemas da sobrecarga no nosso SNS é que não se investe na prevenção. Dois dos nossos maiores flagelos são a hipertensão e a diabetes, e ambos podem, em grande medida, ser prevenidos ou regulados com exercício e uma boa alimentação.

Por ouro lado, o estilo de vida contemporâneo, altamente sedentário e dado ao stress e a noites mal dormidas, é meio caminho andado para nos phoder a todos.


E pronto, no meio desta m**** toda — e não me considerando, de todo, melhor que ninguém —, e apesar de ter uma maneira de pensar e de estar muito diferente da deles, cada vez dou mais valor à educação que os meus pais e os meus avós me deram. Tive a sorte de nascer numa família onde não faltava rigorosamente nada — e não vou dizer que às vezes não é uma sorte, porque seria condescendente, e nem é verdade. É mesmo uma sorte, e dá-nos mais opções e segundas e terceiras oportunidades (até quando não as merecemos) onde muita gente não tem sequer uma —, mas nunca tive nem mais, nem melhores brinquedos, roupa, TVs maiores na sala, telemóveis, ou o que quer que seja, que os meus colegas, muito pelo contrário até, e se queria alguma coisa tinha de fazer por isso, e mesmo fazendo havia limites. Ouvi muita vez "vai ver ao dicionário", "não gostas, comes mais para te habituares", entre outras, e ai de mim que entrasse em casa de boné, não cumprimentasse toda a gente como deve ser, ou me sentasse à mesa de pijama para almoçar (ao jantar estava a valer). Ouviram muitas queixas dos professores por eu ser distraído e falador, mas nunca os ouviram dizer que era mal-educado ou respondão — nem eu, nem a minha irmã. São pormenores, mas fazem a diferença.

Também convém sublinhar que educar não é só regras e ralhar. Tive um avô incrível, com quem só me arrependo de não ter passado mais tempo, que nos passou todos os valores que interessam, e, mais que isso, praticava-os todos os dias, e, por isso, ainda é o meu modelo de homem, de "patriarca" e de cidadão, e é recordado com muito carinho por todos os que se cruzaram com ele — do mais alto quadro não sei de onde, o bispo daqui ou o Dr. Não Sei Quantos dali, ao senhor que lhe vendia o jornal e a Ti Maria da praça, levavam todos exactamente o mesmo tratamento (sem condescendência nenhuma com uns, às vezes fazendo um frete aos outros).
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Brunhu » sexta jan 09, 2026 11:30 pm

O engraçado disto tudo, é que alguns de nós, que estamos aqui cheios de moral, fazemos parte daquela que era conhecida como a Geração Rasca!!

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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Vooder » sexta jan 09, 2026 11:47 pm

Esse termo "rasca" foi usado originalmente no sentido de pobreza e precariedade. Na altura em que os jovens ainda se manifestavam por problemas económicos. Claro que foi também aproveitado para rasca no sentido do "choque" que os teenagers e as suas tribos representavam num Portugal dos anos 90, ainda mais conservador que hoje.
O que é curioso é que essa geração "rasca" agora enquanto adulta, aparentemente vai ser a última a viver melhor do que a anterior.
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Brunhu » sexta jan 09, 2026 11:51 pm

Vooder Escreveu:Esse termo "rasca" foi usado originalmente no sentido de pobreza e precariedade. Na altura em que os jovens ainda se manifestavam por problemas económicos. Claro que foi também aproveitado para rasca no sentido do "choque" que os teenagers e as suas tribos representavam num Portugal dos anos 90, ainda mais conservador que hoje.
O que é curioso é que essa geração "rasca" agora enquanto adulta, aparentemente vai ser a última a viver melhor do que a anterior.

Ainda há pouco tempo comentava com amigos que nós fomos, talvez, a geração que mais aproveitou a liberdade! Valia (quase) tudo e os pais eram bem mais desligados que agora!

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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Vooder » sábado jan 10, 2026 12:07 am

Sem dúvida.
Regras, poucas: "meninos, portem-se bem aí atrás ou meto o cinto de segurança" :lol: se o carro tivesse claro. Tantas coisas que se faziam de forma diferente que nem vale a pena estar a citar. Os anos 90 foram os anos em que se podia dizer o que se quisesse sem ser acusado de nada, liberdade a sério. Podia-se fazer merda (normal na juventude) e não estar alguém a filmar. E claro, em termos de DM e BM foram o pico.
Havia "personalidade" na juventude. Hoje se se sair do padrão é algo dramático para um teen :lol:
A internet ao contrário do que se pensava, ao invés de trazer diversidade trouxe homogeneidade cultural. Uma espécie de gentrificação das pessoas.

Isto não é estar a ser nostálgico, é uma constatação.
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Brunhu » sábado jan 10, 2026 12:29 am

Tudo dito na última frase!

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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Selvagem » sábado jan 10, 2026 3:05 am

My 2 cents, tentando ser sucinto:

- Conheço alguns jovens (por jovens refiro-me a jovens adultos, não conheço bem a realidade dos jovens abaixo dos 20 anos) que se enquadram no que aqui foi descrito, mas por outro lado também conheço bastantes que são o oposto, são funcionais, sociáveis, inteligentes e cultos. Talvez a situação não seja assim tão má (ou então é a minha amostra que está enviesada).

- A questão da forma física/ginásio é curiosa. Generalizando, acho que muitos o fazem não por motivos de saúde mas sim por motivos estéticos. Alguns até fumam e bebem. Mas acho que isto da forma física é um fenómeno que está a ser comum também em gerações mais velhas.
O ser humano nunca lidou bem com a ideia de envelhecimento e morte. Acho que isso vai ser uma questão muito relevante nas próximas décadas. Temos uma sociedade cada vez mais obcecada com a juventude e aparência, e acho que a maior parte das pessoas não está preparada para o envelhecimento.

- Vi recentemente um vídeo ensaio que debruçava sobre o declínio do ocidente. Um dos principais motivos, mas não só, pode estar ligado aos telemóveis. A dependência dos telemóveis e redes sociais explica quase todos os problemas que aqui mencionaram anteriormente.
A geração que estamos aqui a criticar foi a primeira a crescer num mundo 100% digital.
A Internet, os telemóveis, as redes sociais apareceram nas nossas vidas demasiado rápido. Acho que são ferramentas demasiado poderosas e cuja disseminação foi feita antes de termos avaliado os seus impactos nocivos. A verdade é que também não podia ser de outra forma, facilita-nos a vida e são fonte de lucro. O problema é que o preço a pagar pode ser elevado.
Os jovens não tem culpa, nós é que lhes passámos para as mãos um monstro descontrolado que nós próprios criámos e deixamos que seja esse monstro a educá-las em vez de nós.

- A questão de quem tem ou não tem filhos também é curiosa. Generalizando mais uma vez, o que se vê é uma classe média cada vez com menos filhos e a tê-los mais tarde. Já desenvolvi essa ideia noutro tópico, mas resumidamente, o aumento do custo de vida e a normalização do consumismo desenfreado impossibilita a classe média de ter filhos. Já ter uma casa, um empréstimo ou um carro é difícil, quanto mais um filho.. Quem acaba por ter mais filhos é a classe alta (que pode sustentá-los) e as classes baixas (que têm menos instrução e vivem em condições precárias).
A classe média acaba descontente, fizeram tudo certo, estudaram, trabalharam, lutaram para subir no elevador social, mas no final o sistema falhou-lhes. A meritocracia falhou. Não é difícil adivinhar quem se vai aproveitar deste descontentamento para fins políticos..


Bem, já estou a desviar do tema e já escrevi mais do que queria. Um gajo vai escrevendo e começa a divagar..

Blackadder Escreveu:Porra, tenho mesmo de aprender que NINGUÉM QUER SABER e começar a escrever menos.


Not true. Por acaso costumas fazer bons posts. E faz bem escrever, ajuda a sistematizar as ideias.

Blackadder Escreveu:Outro dos grandes problemas do nosso tempo é achar que o segredo está na especialização, que um engenheiro só tem de saber muito da sua área e da sua especialização específica dentro dessa área. Isso é uma estupidez de todo o tamanho que só vai formar "engenheiros", no sentido depreciativo que às vezes se chama aos chico-espertos do desenrasca.

Um dos grandes problemas do nosso sistema de ensino, e da sociedade no geral, é não se estimular o pensamento crítico. Estamos formatados para engolir e vomitar "factos". Coisas como o pensamento crítico (que é muito mais do que os idiotas do mundo empresarial e da WebsSummit chamam problem solving) e a criatividade foram completamente escorraçadas dos domínios educativos e profissionais precisamente porque não são bons para essa lógica de linhas de montagem e hierarquias verticais.

É algo em que penso muito — e um flagelo de que não me excluo —, e me entristece bastante. Se não me desse já por derrotado, preocupar-me-ia bastante em relação ao nosso futuro enquanto sociedade, mas por uma questão de auto-preservação já me estou a cagar.


Concordo em absoluto. A especialização não foi um caminho que escolhemos, foi um caminho ao qual fomos conduzidos naturalmente resultado de uma acumulação cada vez maior de conhecimentos. Obvio que depois gera os problemas que referes.

Ainda assim acho difícil voltar atrás. Acumulámos tanto conhecimento que é impossível ter alguém que saiba tudo como antigamente.
Isso via-se muito por exemplo nas ciências. Até ao séc. XIX havia naturalistas que sabiam tudo de todas as áreas das ciências naturais, botânica, astronomia, química, anatomia.. com o acumular de conhecimentos teve de começar a fazer-se especialização. Isto é válido para todas as áreas. é a forma da maquina civilizacional andar, cada um de nós é uma peça da engrenagem.

Por outro lado perdemos muito com essa especialização do conhecimento. Perdemos como indivíduos pois conhecemos apenas uma parte sem nunca conhecer bem o todo, e perdemos como sociedade pois sacrificamos em ideias e inovação.

Saber um pouco de tudo, mesmo fora da nossa área, é importante para fazer pontes e desenvolver novas ideias pois vemos as coisas por outro prisma. Voltando ao séc. XIX, é bem conhecido como, por exemplo, Darwin ao estudar teorias politicas económicas de Thomas Malthus sobre demografia humana e escassez de recursos, usou esse conhecimento para desenvolver a ideia da seleção natural aplicada à biologia, unindo duas áreas completamente diferentes.
Hoje em dia não é impossível que aconteçam coisas semelhantes mas é mais difícil devido à especialização.

Se pensarmos bem na quantidade de pessoas, tempo, estudo, ideias, fases de concepção e montagem que envolvem a criação da maior parte da nossa tecnologia, mesmo a mais básica, é impensável conseguirmos criar algo sozinhos.

Algo tão simples como uma lâmpada.. se amanhã a população mundial fosse reduzida a 100 ou mesmo 1000 pessoas aleatórias e ficassem sem tecnologia, duvido que essas pessoas conseguissem sozinhas construir uma lâmpada do zero. Quem sabe fazer vidro? Quem sabe onde extrair e como trabalhar metais? Como fazer os moldes das peças? Quem sabe montar? Quem sabe como funciona a electricidade? Não existe sequer manual de instruções para todo este processo. Essas 1000 pessoas poderiam levar anos, décadas ou mesmo gerações até conseguir construir uma simples lâmpada.

É incrível como desenvolvemos durante séculos uma máquina civilizacional tão bem montada e totalmente dependente de todos os mais ínfimos componentes, ou seja, a função específica de cada um de nós. A especialização e os "engenheiros" são o resultado natural da nossa evolução.
"..too old for this shit.."

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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor aetheria » sábado jan 10, 2026 10:07 am

Brunhu Escreveu:Ainda há pouco tempo comentava com amigos que nós fomos, talvez, a geração que mais aproveitou a liberdade! Valia (quase) tudo e os pais eram bem mais desligados que agora!


Digo-o muitas vezes também (e com tristeza, quando o associa às minhas filhas) que tivemos a felicidade de viver numa fase de conquistas (mais liberdade, crescimento económico, abertura de mentalidades, otimismo para o futuro), e não é isso que os jovens de hoje têm à sua frente: a curva foi em ascensão para nós, para eles está a descer (e cada vez mais a pique).

Vooder Escreveu:O que é curioso é que essa geração "rasca" agora enquanto adulta, aparentemente vai ser a última a viver melhor do que a anterior.


Pois... mas que geração é essa? é a adulta, de hoje, são os pais de hoje... :wink: E se essa foi a geração "à rasca", imagina a de hoje.

Selvagem Escreveu:- Conheço alguns jovens (por jovens refiro-me a jovens adultos, não conheço bem a realidade dos jovens abaixo dos 20 anos) que se enquadram no que aqui foi descrito, mas por outro lado também conheço bastantes que são o oposto, são funcionais, sociáveis, inteligentes e cultos.


Exatamente! Quando são bons, quando têm a inteligência emocional de perceber e aproveitar as ferramentas que têm nas mãos, são muito melhores.
Os meus bons alunos, dão 20 a zero à boa aluna que eu era. As minhas filhas, são 20x mais focadas do que eu (diletante como sou, queria ver o que eu faria com um telemóvel nas mãos, quando jovem :mrgreen: ).

A Internet, os telemóveis, as redes sociais apareceram nas nossas vidas demasiado rápido. Acho que são ferramentas demasiado poderosas e cuja disseminação foi feita antes de termos avaliado os seus impactos nocivos. A verdade é que também não podia ser de outra forma, facilita-nos a vida e são fonte de lucro. O problema é que o preço a pagar pode ser elevado.


Exatamente. Não se anteciparia a influência brutal (e que foi muito rápida... há 20 anos estávamos a enviar sms, poupando carateres, ligação à internet com o telemóvel? se até com computador era penoso...) e quando nos apercebemos, já o polvo tem os tentáculos do poder bem dentro do sistema.

Algo tão simples como uma lâmpada.. se amanhã a população mundial fosse reduzida a 100 ou mesmo 1000 pessoas aleatórias e ficassem sem tecnologia, duvido que essas pessoas conseguissem sozinhas construir uma lâmpada do zero. Quem sabe fazer vidro? Quem sabe onde extrair e como trabalhar metais? Como fazer os moldes das peças? Quem sabe montar? Quem sabe como funciona a electricidade? Não existe sequer manual de instruções para todo este processo. Essas 1000 pessoas poderiam levar anos, décadas ou mesmo gerações até conseguir construir uma simples lâmpada.

É incrível como desenvolvemos durante séculos uma máquina civilizacional tão bem montada e totalmente dependente de todos os mais ínfimos componentes, ou seja, a função específica de cada um de nós. A especialização e os "engenheiros" são o resultado natural da nossa evolução.


Reflexão muito, muito interessante. Não tinha pensado ainda nesses termos, em relação ao papel da especialização. :metal:

Selvagem Escreveu:Bem, já estou a desviar do tema e já escrevi mais do que queria. Um gajo vai escrevendo e começa a divagar..

Blackadder Escreveu:Porra, tenho mesmo de aprender que NINGUÉM QUER SABER e começar a escrever menos.


Not true. Por acaso costumas fazer bons posts. E faz bem escrever, ajuda a sistematizar as ideias.


Pois bem, sabem que ainda ontem pensava nisto: no MU encontro um "safe place" para debater ideias. E adoro.
E reparem como isto é tão revelador da alteração (tão rápida) dos padrões e do mundo, provocados pelas redes sociais mais imediatistas: se o MU (aquele, outrora, antro de discussão e ataque) se tornou num oásis de civilizado e, por vezes, profundo debate de ideias, o que é que isso nos diz do papel das restantes redes sociais? AGORA PENSEM :mrgreen:
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Matusalem
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Matusalem » sábado jan 10, 2026 1:32 pm

Mas há uma coisa que ninguem fala e ninguem me tira da cabeça que tambem teve a sua quota parte no inicio do declínio da geração a seguir aos anos 80 : os desenhos animados.
Pelo menos os desenhos animados que eu via na minha altura eram instrutivos e havia sempre uma componente de companheirismo e fraternidade entre os personagens, seja o Dartacão, o urso Micha, o Tom Sawyer, as Fábulas da Floresta Verde, Era uma vez a Vida, Era uma vez o Espaço, Jack e Jill, o He-Man, etc. Eram formativos, educacionais e informativos. Eu nao tenho filhos como já se devem ter apercebido, mas primos meus da minha geração tiveram e quando ia a casa deles via os desenhos animados que os miudos estavam a ver e me perguntava: que porra é esta. Os desenhos animados da minha geração representavam pessoas, animais, plantas, era fácil identificar as coisas e tinham história. Os desenhos animados que os filhos dos meus primos viam eram uma esponja com boca e pernas, uns quadrados e triangulos muito coloridos com umas bocas enormes e uns braços e pernas fora das dimensoes espaciais e não faziam nada, andavam para ali. Peço imensa desculpa mas aquilo para mim era simplesmente a estupidificação dos miudos. Só faltava os miudos dos meus primos começarem a ter baba ao canto da boca a olhar para aquilo.
Ou talvez seja defeito meu em não ter acompanhado os tempos e estou a ser apenas rezingão, mas seria interessante alguem fazer um estudo acerca disso.

Nota: Actualmente não faço ideia como são os desenhos animados para os miudos, nao sei se melhoraram ou continuam o mesmo "non sense".

Perdoai meter a minha foice em seara alheia.

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Selvagem
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Re: Aquele sentimento...

Mensagempor Selvagem » sábado jan 10, 2026 3:43 pm

aetheria Escreveu:
A Internet, os telemóveis, as redes sociais apareceram nas nossas vidas demasiado rápido. Acho que são ferramentas demasiado poderosas e cuja disseminação foi feita antes de termos avaliado os seus impactos nocivos. A verdade é que também não podia ser de outra forma, facilita-nos a vida e são fonte de lucro. O problema é que o preço a pagar pode ser elevado.


Exatamente. Não se anteciparia a influência brutal (e que foi muito rápida... há 20 anos estávamos a enviar sms, poupando carateres, ligação à internet com o telemóvel? se até com computador era penoso...) e quando nos apercebemos, já o polvo tem os tentáculos do poder bem dentro do sistema.


De facto é mesmo impressionante o crescimento exponencial da tecnologia.

A nossa espécie tem cerca de 300 mil anos, a maior parte desse tempo a nossa tecnologia resumia-se a pedras e paus. Só há pouco mais de 5 ou 6 mil anos desenvolvemos a escrita e a roda.. O primeiro grande boom foi a revolução industrial, que tem menos de 300 anos, depois veio a electricidade outro marco essencial.. A Internet foi a meu ver um boom ainda maior.. e é algo que só está disseminado apenas há cerca de 20-25 anos.

É incrivel o quanto nos desenvolvemos, principalmente desde a electricidade, e depois com a Internet.. e nem temos ideia aonde esta nos irá levar.. e este crescimento só foi possível devido à acumulação e partilha de conhecimento (e especialização) que falei anteriormente.


aetheria Escreveu:
Selvagem Escreveu:Bem, já estou a desviar do tema e já escrevi mais do que queria. Um gajo vai escrevendo e começa a divagar..

Blackadder Escreveu:Porra, tenho mesmo de aprender que NINGUÉM QUER SABER e começar a escrever menos.


Not true. Por acaso costumas fazer bons posts. E faz bem escrever, ajuda a sistematizar as ideias.


Pois bem, sabem que ainda ontem pensava nisto: no MU encontro um "safe place" para debater ideias. E adoro.
E reparem como isto é tão revelador da alteração (tão rápida) dos padrões e do mundo, provocados pelas redes sociais mais imediatistas: se o MU (aquele, outrora, antro de discussão e ataque) se tornou num oásis de civilizado e, por vezes, profundo debate de ideias, o que é que isso nos diz do papel das restantes redes sociais? AGORA PENSEM :mrgreen:


Exacto. Se as coisas continuarem a evoluir da mesma forma num futuro breve o Facebook e o Twitter serão substituídos por outras ferramentas e também eles se tornarão espaços de discussão profunda e civilizada :evillol:

Matusalem Escreveu:Mas há uma coisa que ninguem fala e ninguem me tira da cabeça que tambem teve a sua quota parte no inicio do declínio da geração a seguir aos anos 80 : os desenhos animados.
Pelo menos os desenhos animados que eu via na minha altura eram instrutivos e havia sempre uma componente de companheirismo e fraternidade entre os personagens, seja o Dartacão, o urso Micha, o Tom Sawyer, as Fábulas da Floresta Verde, Era uma vez a Vida, Era uma vez o Espaço, Jack e Jill, o He-Man, etc. Eram formativos, educacionais e informativos. Eu nao tenho filhos como já se devem ter apercebido, mas primos meus da minha geração tiveram e quando ia a casa deles via os desenhos animados que os miudos estavam a ver e me perguntava: que porra é esta. Os desenhos animados da minha geração representavam pessoas, animais, plantas, era fácil identificar as coisas e tinham história. Os desenhos animados que os filhos dos meus primos viam eram uma esponja com boca e pernas, uns quadrados e triangulos muito coloridos com umas bocas enormes e uns braços e pernas fora das dimensoes espaciais e não faziam nada, andavam para ali. Peço imensa desculpa mas aquilo para mim era simplesmente a estupidificação dos miudos. Só faltava os miudos dos meus primos começarem a ter baba ao canto da boca a olhar para aquilo.
Ou talvez seja defeito meu em não ter acompanhado os tempos e estou a ser apenas rezingão, mas seria interessante alguem fazer um estudo acerca disso.

Nota: Actualmente não faço ideia como são os desenhos animados para os miudos, nao sei se melhoraram ou continuam o mesmo "non sense".

Perdoai meter a minha foice em seara alheia.


Por acaso falei disso noutro tópico não faz muito tempo. Acho que isso é verdade. Não sei se o impacto final na psique das crianças é grande ou não, mas a verdade é que os desenhos animados antigamente eram mais ricos, transmitiam valores, falavam de adversidades e superação, não havia tabu em abordar temas como a morte, a perda ou a violência. Hoje a maioria dos bonecos são demasiado infantis, demasiado "safe", tudo muito cor-de-rosa, tenta-se proteger demasiado as crianças do lado negro da vida.

E outra coisa que também falei foi o quanto muitos desses desenhos eram verdadeiras referências de vida e acabaram por moldar os nossos valores e os adultos que nos tornámos.
Hoje em dia a impressão que tenho (não conheço muito a fundo a realidade das crianças) é que as referências dos miúdos são esses desenhos hiper infantilizados quando são muito novos e depois, quando são mais velhos, são os influencers e as redes sociais.

Não me preocupa que os miúdos sejam diferentes, cada geração é sempre diferente da anterior. Preocupa-me aquilo a que estão expostos e como isso vai influenciar a sociedade do futuro.
A exposição desde muito novos (quando ainda são muito influenciáveis) a influencers que vivem da venda de valores materialistas e politicas extremistas, que criam realidades alternativas num ambiente desregulado preocupa-me.

É preocupante ver jovens a questionar, por exemplo, a importância da democracia ou a pôr em causa os problemas do fascismo, quando não têm ainda nenhuma experiência com a realidade.
Os miúdos de hoje viram-se para os extremismos por razoes diferentes dos adultos. Os adultos têm a experiência do descontentamento, os miúdos não. Os miúdos são vitimas de lavagem cerebral e da criação de verdades alternativas.
Receio que depois de expostos desde tão novos não sejam "recuperáveis". Isso é algo que me preocupa e que precisamos resolver para não correr o risco de amanhã perder muitas das conquistas difíceis que fizemos enquanto sociedade.
"..too old for this shit.."


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