Mia Couto : Carta Ao Presidente Bush

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bassbart
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Mia Couto : Carta Ao Presidente Bush

Mensagempor bassbart » terça out 03, 2006 11:35 am

não sei se já postaram isto aqui mas acho que não... apesar de ser um bocado longo, achei o texto fantastico... fique aqui então e opinem se puderem...

Mia Couto

:::CARTA AO PRESIDENTE BUSH:::

Senhor Presidente:

Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria.

Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do apartheid - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o apartheid mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.

Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos. Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam? Que receios o vosso país me inspirava ? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns:

- Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações

- O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça

- Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão.

- O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1988)

- Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico.

- Como tantos outros fantoches, Mobutu Sese Seko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992

- A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade".

- O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.

- Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.

- Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel) a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.

- Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.

- Desde a Segunda Guerra Mundial os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)

- Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em pratica pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.

- O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas

Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.

Senhor Presidente:

O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens.

O que está destruindo massivamente os iraquianos não são armas de Saddam. São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções. Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse sistema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas.

Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição áreea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo)

Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares). por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.

O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu-lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja católica da Florida é um ex-combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram lideres popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais ? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas ? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas ao povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."

Senhor Presidente:

Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê-lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa. Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.

Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos. O maior perigo não é o regime de Saddam., nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.

Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação para consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.

Intifada
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Mensagempor Intifada » terça out 03, 2006 2:37 pm

Nada de novo, suponha que toda a gente conheça a História.


Mas é sempe bom alguém relembrar...

Bom post!

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Mensagempor PoisonGodMachine » terça out 03, 2006 3:58 pm

O senhor presidente Bush teria parado na palavra moçambicanos...

"Moçambicanos?... Moçambicanos?... Mouzambik?... what tha fuck is that?!... Hey Rumsfeld, get over here...." :?

Razor
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Mensagempor Razor » terça out 03, 2006 6:31 pm

Esse Mia Couto é um traidor, é branco mas nos tempos da guerra colonial juntou-se aos negros e andou a matar brancos a fim de ganhar tacho no governo moçambicano.Put@ que o pariu!

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PoisonGodMachine
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Mensagempor PoisonGodMachine » terça out 03, 2006 10:26 pm

Razor Escreveu:...andou a matar brancos...


Coitadinhos...

Razor
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Mensagempor Razor » terça out 03, 2006 11:10 pm

Sim, porque ter pena de soldados que não pediram a guerra e que foram obrigados a ir para lá? :roll:

Intifada
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Mensagempor Intifada » terça out 03, 2006 11:49 pm

E porque não ter pena de pretos que apenas estavam a expulsar os invasores e a reclamar o que era seu por direito natural?

Lux-A [RIP]

Mensagempor Lux-A [RIP] » quarta out 04, 2006 6:36 am

E que tal ter-se pena de quem perdeu família e amigos, fossem brancos,pretos,amarelos ou cor do caraças, só porque se lembraram de começar uma guerra pela independência e agora todos os anos levam ¤ de Portugal porque não têm condições para nada?

Razor
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Mensagempor Razor » quarta out 04, 2006 12:25 pm

Intifada Escreveu:E porque não ter pena de pretos que apenas estavam a expulsar os invasores e a reclamar o que era seu por direito natural?
Mas eu compreendo perfeitamente os movimentos de libertação das ex-colónias, eu no lugar deles faria exactamente o mesmo, o meu problema é mesmo com este parasita que é branco e andou a matar pessoas da mesma cor para ter tacho vitalício nos governos moçambicanos.

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Mensagempor PoisonGodMachine » quarta out 04, 2006 12:48 pm

Razor Escreveu:...este parasita que é branco e andou a matar pessoas da mesma cor...


O que é que a cor tem a ver com isso?...

Independentemente do lado da trincheira, a guerra é um conflito de ideais, sejam eles bons ou maus e cada um escolhe o seu. A Finlândia não esteve em guerra com a Rússia? Quem eram os pretos aí?

O que estás a falar é traição e isso, como dizia o Einstein, "depende do referencial escolhido"!
O Mia Couto pode ter sido um traidor (fosse lá do que fosse), mas não pelo simples facto de ter andado a "matar brancos".

Seja como for, a carta está excelente.

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Re:

Mensagempor Melo VLG » domingo ago 24, 2008 3:54 pm

Razor Escreveu:Esse Mia Couto é um traidor


É um traidor porquê? Ele esteve do lado dos seus... ele é moçambicano!!
E quanto à conversa de quem ter pena, se é dos brancos ou dos pretos, acho que é mais ter pena dos inocentes que iam para a frente de combate por causa de alguns cabeçilhas... agora essa situação é muito difícil de avaliar porque os moçambicanos estavam a expulsar os invasores, como nós fizemos muitas vezes, e os portugueses estavam a defender um território que tinham descoberto há umas centenas de anos atrás... o problema é que já havia gente lá! :?
Quanto à carta, é um texto fabuloso, que põe a nu muitas das más coisas que os EUA fizeram ao longo da história e que muita boa gente não quer ver ou ignora!!

p41nk1ll3r
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Re: Mia Couto : Carta Ao Presidente Bush

Mensagempor p41nk1ll3r » domingo ago 24, 2008 5:23 pm

grande carta! a China deveria financiar os nativos e fornecer-lhes armas para expulsar os brancos e os pretos dessa terra!

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Necrophilvs
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Re:

Mensagempor Necrophilvs » domingo ago 24, 2008 6:14 pm

Razor Escreveu: Mas eu compreendo perfeitamente os movimentos de libertação das ex-colónias, eu no lugar deles faria exactamente o mesmo, o meu problema é mesmo com este parasita que é branco e andou a matar pessoas da mesma cor para ter tacho vitalício nos governos moçambicanos.



deixa-me ver se percebo...tu estás a favor dos movimentos de libertação, mas só pretos podiam ingressar?se um branco que se identificasse com a causa e quisesse lutar contra o governo portugues não deveria fazer tal pq é branco,certo?

ok,dps de uma linha de pensamento tão brilhante, acho que vou deixar de apoiar os palestinianos pois não sou palestiniano ou árabe...ah,mais: exijo aos users que se manifestaram a favor da independencia tibetana a abandonarem a causa, pois não são tibetanos nem orientais...sim,senhor, é cada génio....


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