
Os japoneses Mono regressam em 2007 com o EP The Phoenix Tree após a edição do belíssimo álbum You Are There, editado em 2006. De acordo com a banda, este EP encerra o trabalho conceptual que o colectivo japonês desenvolveu desde o álbum Walking Cloud And Deep Red Sky, Flag Fluttered And The Sun Shined (2004) acerca do lançamento da bomba atómica em Hiroshima, no final da Segunda Grande Guerra, decorria o mês de Agosto de 1945. Inspirados pela obra do pintor japonês Taro Okamoto, bem como pela sua visão particular acerca do assunto, os Mono sublinham em The Phoenix Tree um conceito que se tornou fundamental não só para os que sofreram com os ataques nucleares de Hiroshima e Nagasaki, mas para todos aqueles que todos os dias se deparam com atrocidades inexplicáveis: a esperança num futuro diferente, e melhor.
“Gone” é o primeiro tema deste EP, criado a partir de "The Myth Of Tomorrow" – uma obra de Taro Okamoto. A duração do tema (mais curta até do que a maioria dos temas dos Mono) acaba por ser lamentável, dado o crescendo épico que a música nos sugere, a sua construção meticulosa num gesto quase de pé ante pé que nos sugere a noção de renascimento, ainda que o título possa parecer completamente antagónico. A secção de cordas está trabalhada de um modo especial, que nos empurra para dentro deste tema, como se facto, este renascimento fosse o nosso próprio.
O segundo tema, “Black Rain”, conta com a participação da italiana Giovanna Cacciola (membro dos Bellini e dos Uzeda), que recita um poema da sua autoria. Este tema procura retratar a chuva negra que caiu após a explosão da bomba atómica em Hiroshima e que cobriu com um manto negro a cidade já desfeita. Este é um tema de uma angústia e melancolia latentes, que transparecem da interpretação de Giovanna, mas sobretudo das guitarras dos Mono, que se transformam de facto numa espécie de aguaceiro desolante e desolado. O final do tema é soberbo e se acompanhamos com a nossa mente as imagens e os sentimentos que os Mono pretenderam ilustrar com este trabalho, é impossível não nos sentirmos profundamente afectados por “Black Rain” e por tudo o que este tema recorda. É deslumbrante, mas imensamente triste. E é justamente desta tristeza que brota uma beleza estranha e que faz de “Black Rain” um momento único em The Phoenix Tree.
“Rainbow” é o momento de viragem do trabalho. Conduzido apenas pela secção de cordas, este tema é justamente acerca do arco-íris que apareceu após a chuva negra. A cidade seria depois completamente reduzida a cinzas pelos incêndios que se espalharam por todo o lado. Segundo a banda, “Rainbow” procura sonorizar os sentimentos dos sobreviventes ao se depararem com um arco-íris no meio de uma tragédia com as proporções conhecidas. E o que ressalta deste tema é justamente uma sensação de admiração perante algo que está completamente deslocado do cenário e para o qual se procura uma explicação. A presença deste tema em The Phoenix Tree funciona como uma divisão entre passado e futuro, uma espécie de passagem para um tempo que será necessariamente melhor, representado justamente pelo tema que encerra o EP.
E chegamos a “Little Boy (1945 – Future)”. Este tema apresenta uma sequência com jogos de sinos absolutamente enternecedora e tal como a faixa que abre o EP é acompanhado por um crescendo, este mais esplendoroso que o primeiro, provavelmente pela maior duração da faixa, que é de resto também a mais pesada, confortavelmente instalada no âmbito do pós-rock ambiental a que a banda japonesa já nos habituou. “Little Boy (1945 – Future)” é um tema mais expansivo que os restantes que compõem o registo, intenção dos Mono de recriar uma ideia de futuro, de olhar em frente, procurar mais e melhor e de viver ao invés de se sobreviver macerado com um episódio passado que é por si só constrangedor e incompreensível. The Phoenix Tree é um trabalho com uma grande personalidade, sobretudo se desvendarmos a história por detrás de cada tema. É um trabalho que nos toca emocionalmente, que se torna cada vez mais visual à medida que avançamos nos vinte e cinco minutos que o compõem. Não é especialmente inovador, e é lamentável que a sua duração seja tão reduzida. Mas é valioso e é um objecto de expressionismo sonoro, daqueles que raramente nos vêm parar às mãos.
in: hiddentrack.net (Susana Jaulino)
Para completar esta critica, fica aqui o link para o scan da critica que saiu hoje no Jornal de Noticias (Sim, é estranho! Pois o álbum está esgotado em todo o lado)
Review do JN:

É um albúm que não deve passar ao lado daqueles que gostam de Post-rock mais intenso, com distorção e um trabalho de guitarras fenomenal, conseguem criar uma atmosfera densa e pesada como poucas bandas conseguem... mas ao mesmo tempo é de uma subtileza tocante.
Um dos melhores álbuns do ano!
Site da banda:
[url=http://www.mono-jpn.com[/url]Mono[/url]