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aetheria
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Re: Literatura

Mensagempor aetheria » segunda fev 09, 2026 6:09 pm

kiddo Escreveu:Camaradas!
Não sei se já leram, mas recomendo este conto a todos aqueles que procuram por velhas narrativas da nossa terra com traços de paganismo e até mesmo um pouquinho de satanismo:
"A Dama Pé de Cabra" de Alexandre Herculano -> Esta história encontra-se no segundo volume das suas "Lendas e Narrativas"


Já sim! esse tipo de narrativo não tem a ver com o satanismo, resulta mais de um misto de paganismo e a sua infiltração no pensamento religioso da idade medieval. Sendo o Herculano um dos nossos grandes nomes do período romântico, recuperou essa e outras lendas (algo comum nessa corrente artística). A lenda da Dama Pé de Cabra está ligada a uma linha chamada de contos melusianos. Na Idade Média, era até de bom tom nas famílias nobres procurarem raízes genealógicas num desses seres fantásticos :D
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Re: Literatura

Mensagempor kiddo » segunda fev 09, 2026 11:16 pm

aetheria Escreveu:
Já sim! esse tipo de narrativo não tem a ver com o satanismo


Mas o facto daquele "gajo"(já ñ me lembro do nome da personagem) não se poder persignar, o pé de cabra,a mula a ficar toda tola com a cruz, achas que isso não torna a histórica um pouquinho ligada ao satanismo?

Essa dos contos melusianos não conhecia. Deve ser um bom "lugar" para encontrar os resquícios do paganismo português. Obrigado :)

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aetheria
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Re: Literatura

Mensagempor aetheria » terça fev 10, 2026 3:22 pm

kiddo Escreveu:
aetheria Escreveu:
Já sim! esse tipo de narrativo não tem a ver com o satanismo


Mas o facto daquele "gajo"(já ñ me lembro do nome da personagem) não se poder persignar, o pé de cabra,a mula a ficar toda tola com a cruz, achas que isso não torna a histórica um pouquinho ligada ao satanismo?

Essa dos contos melusianos não conhecia. Deve ser um bom "lugar" para encontrar os resquícios do paganismo português. Obrigado :)


Sim, quando a matéria pagã entra no imaginário cristão, passa a ser associada ao satanismo. Mas mais por associação do que por relação
Os contos melusianos atravessam a Europa toda, não é um exclusivo português (deve ser até mais uma herança/influência exterior).
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Re: Literatura

Mensagempor Liwyatan » sexta mar 20, 2026 12:42 pm

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Comecei a ler isto na terça-feira, e já vou a meio.

Entretanto tenho alguns para ler de filosofia e história, mas decidi começar por estes estes 4:
- O acima referido História do Pensamento Político Ocidental de Diogo Freitas do Amaral;
- Breve História da Filosofia Moderna de Roger Scruton;
- História Contemporânea de Portugal – Do 25 de Abril à Atualidade (os dois volumes) de António Telo;
- História de Portugal de Coordenação de Rui Ramos.

Tenho de ler isto tudo ainda este mês, e ainda tenho outros quantos para ler em Abril.

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Re: Literatura

Mensagempor Blackadder » sexta mar 20, 2026 6:54 pm

Reza a lenda que o História das Ideias Políticas do Freitas é muito bom para estudar essas coisas — mas ainda é um calhamaço.

Entretanto a coisa descambou e tenho-me desleixado nas leituras.

Ainda assim, comecei o Tango de Satanás[, do László Krasznahorkai — Nobel e colaborador do Béla Tarr — e fiquei contente por ser muito mais acessível do que julgava. Lê-se muito bem. Contudo, meti-o em pausa porque quero lê-lo com atenção e a solo. Tenho outros para acabar primeiro. Mas, pelo que já li, estou muito bem impressionado. Parece-me menos negro do que estava à espera — menos pesado, menos denso. Don't get me wrong, aquilo é uma desgraça, mas desconfio (até pelo que já vi de entrevistas e tal…) que se vai revelar um autor muito humano. Nota-se que tem carinho pelas personagens (até pelas más), e que em vez de ceder ao niilismo encontra um sentido na compaixão e na dignidade humanas.

Entretanto, estava a precisar de qualquer coisa para limpar o palato e ganhar ritmo — que o outro que ando a ler é um bocadinho cansativo/exigente — de modo que peguei n'A Morte de Ivan Iliich, do Tólstoi. Nunca tinha lido nada dele. Isto porque estive a rever a conversa do Lobo Antunes com o Steiner em que ambos concordam que é um livro perfeito. Em termos meramente literários — da escrita, isto é — acho que concordo. Não tem palavras nem a mais nem a menos — tudo certinho. São 100 páginas que se lê numa tarde. Recomendo. Assim de repente, o que me veio logo à cabeça é que tem uma escrita muito mais elegante, leve e cuidada que o Dostoiévski — que acho que é um apontamento comum de se fazer (até adicionei um livro no Goodreads que é precisamente o "Dostoiévski Vs. Tólstoi" ou algo do género). O Dosto é mais pelas ideias, pela filosofia, pela profundidade, a escrita em si tem momentos.

Liwyatan, este tipo é capaz de te ajudar com as filosofias.
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Re: Literatura

Mensagempor aetheria » sexta mar 20, 2026 7:16 pm

Terei de reler a Morte de Ivan. Na altura que o fiz não me marcou particularmente e é sempre TÃO falado.
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Re: Literatura

Mensagempor Liwyatan » sexta mar 20, 2026 7:56 pm

Blackadder Escreveu:Reza a lenda que o História das Ideias Políticas do Freitas é muito bom para estudar essas coisas — mas ainda é um calhamaço.

Este que estou a ler é exactamente esse mesmo livro (os dois volumes), mas com algumas actualizações, tanto na matéria (contém mais alguns nomes em alguns períodos, e alguns comentários revisados). Sei disto porque o próprio DFA o diz no prefácio, porque nunca tinha lido os outros. Acho que a única coisa que li dele foi um de história, acho que chamado Da Lusitânia a Portugal.

Obrigado pela dica do YT. Tenho ouvido algumas coisas enquanto trabalho. Vou dar uma olhada nesse.

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Re: Literatura

Mensagempor Blackadder » sábado mar 21, 2026 1:41 pm

aetheria Escreveu:Terei de reler a Morte de Ivan. Na altura que o fiz não me marcou particularmente e é sempre TÃO falado.


Bem, ninguém é obrigado a gostar das coisas só porque são "clássicos" — era o que faltava.

Contudo, my two cents:

Spoiler: Mostrar
Não o acho a oitava maravilha do mundo, mas gostei bastante. Talvez porque também não peguei nele com grandes exigências; foi mais numa de "preciso de algo rápido, só para desenferrujar". Como estou a ler uma coisa muito modernaça, vai de pegar num clássico.

Pelo menos em termos da escrita, achei-o não só eficiente como elegante e no tom certo — deve ser muito difícil escrever um livro curtinho, e enfiar lá tudo o que faz falta e nada do que não faz; admiro essa capacidade. Num livro sobre a morte — coisa séria — faz ainda mais sentido manter uma certa contenção.

No fundo, faz uma crítica de costumes (convenções, protocolo) à sociedade burguesa — mas eu acho que é mais ou menos transversal em muitos aspectos. A forma como nos comportamos e seguimos determinados códigos sociais "porque tem de ser / é mesmo assim / c'est comme il faut — se entras em casa de alguém, tiras o boné. Mas mais importante, levando isso às últimas consequências, a forma como às vezes passamos a vida a viver uma mentira (é essa a conclusão de Ivan) porque em vez de vivermos a vida de que gostaríamos, achamos que temos de perseguir dinheiro e estatuto e aturar chatos. E se calhar temos mesmo, porque sem eles depois dificilmente teremos algumas coisas que valorizamos ou gostaríamos de ter — seja conforto material, validação social ou um parceiro atraente e interessante.

Um exemplo pessoal um bocadinho triste e ridículo, mas muito honesto: neste momento estou desempregado. Não é que seja calão, que não goste de trabalhar (bem, gostar não gosto — não me fodam, quase ninguém gosta) ou que haja alguma vergonha na minha situação; fui despedido como têm sido aos milhares por causa do AI — vergonha é roubar e ser apanhado. Estudei, trabalhei, paguei impostos, nunca roubei nada a ninguém nem fui aldrabão, e quero encontrar trabalho sooner rather than later. Contudo, sendo solteiro, sinto um embaraço enorme caso conheça uma rapariga e tenha interesse em começar a falar com ela e convidá-la para beber um copo ou algo do género. Aliás já sentia antes só porque tinha um trabalho muito pouco interessante, aborrecido e ganhava relativamente mal. Não que eu ligue a essas merdas, estou-me a cagar, mas "o inferno são os outros". Eu sei que é estúpido — e há um quê de sociedade patriarcal e machista nesta minha "atitude" —, mas tal como eu, mais do que pensar assim, sinto isto, muitos homens não serão diferentes — não por mal, ou por achar que o homem tem de o que quer que seja; é o mundo em que crescemos e vivemos. Também podia ir pelo argumento biológico, mas não me apetece.

O russo não vai por aqui, mas a lógica é mais ou menos a mesma — aborda este tipo de expectativas e/ou ambições, e outra mais moralmente questionáveis (saber que se tem, não necessariamente poder, mas uma certa autoridade, mesmo que não se faça uso dela).

Também há espaço para uma leitura mais marxista da coisa (e é pertinente), mas eu acho — porque não sou, talvez — que se o virmos desse ângulo, o livro perde porque — e isto é algo que o debate académico/crítico aponta como defeito ao Tolstói — cai no erro de, apesar de ele vir de um meio aristocrata, querer santificar os pobres de uma forma transversal e absoluta, como se fossem todos moralmente puros, e, por oposição, condenar os ricos a serem imediata e invariavelmente moralmente corruptos. Eu acho essa maneira de pensar redutora e infantil — se calhar esta minha leitura também é redutora: 1) e tenho de perceber que ele está a tentar mostrar um argumento, que exagera e não deve ser levado à letra; 2) a própria leitura marxista das classes tem mais nuance que isso, não são tantos as pessoas que são boas ou más, é a posição em que a sua condição os coloca e como isso influência a sociedade etc… eu sei. Não sei, tenho de o ler mais — diz que nos escritos tardios ele desenvolve muito essas ideias.

O que é admirável em termos literários, no entanto, é que podes descartar essa leitura moral-política-económica, e o livro funciona na mesma. Mesmo o personagem do caseiro, ou lá o que é que ele é — um servo, provavelmente —, funciona como veículo na narrativa para essa bondade de espirito, essa compaixão genuína — uma pessoa que, altruísta, põe os seus afazeres de parte ("pode esperar"), tem pena do amo, e acode-o para que este tenha algum conforto e dignidade na hora da morte — sem a coisa ter nada que ver com classe (apesar de a dicotomia ficar implícita).

No Dostoievski, por exemplo, os pobres têm os mesmo vícios e defeitos dos ricos — e os bons corações, se os há, também existem na burguesia — ou simplesmente ninguém é 100% uma coisa ou outra. Mas isso são outros quinhentos. O debate Dostoievski—Tolstoi é um que existe, de facto, na crítica e na academia, e muitas vezes a ideia é a de que um escrevia melhor (Tolstói) mas o outro era um autor mais inventivo, mais sólido e profundo no que respeita às ideias, ao pensamento, à filosofia (Dosto), mais ambicioso desse ponto de vista e por isso descorava um pouco o estilo. Eu — tendo em conta as limitações impostas pela tradução, e o facto de ter sido o único Tolstói que li — tendo a concordar.


E agora para a professora de português mandar uns raios dos olhos. :mrgreen:

Spoiler: Mostrar
Peguei nisto com o intuito de ler mais coisas pré séc.XX, que é uma limitação que (tirando dois Melvillezinhos, ou umas coisas não-luso-franco-germano-etc-ofonas) sempre tive, mas acho que já não sinto tanto. Mas nunca consegui engolir os autores deste lado da europa, a começar pelos portugueses, de influência francesa, do realismo — mas sobretudo por causa dos resquícios do romantismo, que não tenho paciência para tanto pranto, drama e floreado.

[spoiler]A malta do Leste safou-me nesse aspecto, mas ainda tenho alguma dificuldade em vir mais para estas bandas. Quero ver se aos poucos vou apalpando território na literatura portuguesa, e caminhando para a direita — porque do centro-leste, leste, norte até mamo umas coisas.

(Acho) que não gosto dos portugueses porque parece que ninguém parte um prato, que limpam todos só o cantinho da boca com o guardanapo e esticam o mindinho para beber chá. Devem ser restos do romantismo — emprestaram-me o Werther, por causa de uma inside joke que eu não entendo, e não consegui ler aquilo. Não digo que não sejam bons — acho que são. É preciso entendê-los no seu contexto, claro. Mas mesmo os que se rogam um bocadinho mais rebeldes (Eça), às vezes parecem-me uma conice — passe a expressão.

Parece que em casa daquela gente se pode comer a irmã, mas não se fode com F grande… tem de ser um eufemismo qualquer, que nem é fazer amor ou ter relações, tem de ser a coisa ainda mais neutra e púdica possível e SÓ DEPOIS DE PEDIR AUTORIZAÇÃO A DEUS NOSSO SENHOR — é óbvio que estou a gozar e a exagerar muito só para me fazer entender, e percebo que era outro tempo. Mas sei lá, eu nunca li a Jane Austen, por exemplo, mas (na minha ignorância e estupidez) é um ódio de estimação que tenho — porque as pessoas que conheço que gostam muito são umaaaaaaa seeeeeeeecaaaaaaa de genteeeeee, parece que estou a tomar chá com a minha avó materna. Exagero.

O Eça critica a fidalguia, mas também tem uma escrita muito aburgesada (só li os Maias, e mais um texto qualquer; tenho aqui O Mandarim para ler este ano, e tenho curiosidade por outro, não me lembro se é A Cidade e as Serras ou O Primo Basílio ou outro qualquer) que apesar de às vezes ter piada (do que me lembro ser elegante e agradável), sinto que fica a meio caminho.

Se calhar devo começar por algo mais próximo — menos antigo, isto é. Acho que sou gajo para gostar do Torga, que já me cruzei com excertos de textos dele, e li, pelo menos parte do Bichos para a escola para aí no sétimo ano.
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Re: Literatura

Mensagempor aetheria » sábado mar 21, 2026 9:08 pm

Quanto ao Spoiler 1 - tendo a compreender/concordar com tudo o que referiste. Até porque (já é um lugar-comum comigo "tenho mais livros em casa, mas ainda não os li") ainda não li o suficiente de ambos para aprofundar comparações. Falando da vida burguesa vs camponesa, em contexto russo (que em certas matérias é bem mais hardcore do que no resto da Europa, nomeadamente, na subserviência reverencial do povo) lembrei-me de um livro muito cómico e icónico (que por acaso ainda não acabei, pois entretanto já li outros, e agora estou ainda num outro "mais urgente", igualmente interrompido pela constante atividade de fazer testes/corrigir testes(preencher grelhas :roll: ), o Oblomov,do Ivan Goncharov.

Quanto ao Spoiler 2. Sabes, eu também lia sistematicamente autores estrangeiros, quando era jovem. E mesmo mais tarde. Não sei bem porquê. Não sei se tinha preconceito. Entretanto, fui tentando reparar isso. O Torga, que referiste, é um dos meus grandes amores. Especialmente a poesia. Mas qualquer dos seus trabalhos têm a dureza, a verticalidade e uma dimensão humanista que os eleva ao patamar do universal. Por outro lado, A Criação do Mundo, de cariz autobiográfico, é uma excelente viagem pelo Portugal do Estado Novo. Os seus Diários são, igualmente, maravilhosos.
De resto, se escolheres obras do período romântico vais certamente confrontar-te com aquilo que referiste quee não aprecias, mas faz parte do género. Aliás, referiste "restos do romantismo" em Portugal, quando não são propriamente restos: esse é um período que lançou raízes fundas na cultura nacional, até porque a mentalidade nacional se dá bem com o espírito romântico. Eu gosto dos românticos, mas dos avant la lettre, não naquilo em que o romantismo se tornou com o tempo. Se leres as Viagens na Minha Terra, do Garrett, um romântico, encontrarás aí os românticos a serem criticados sem clemência (e este livro, pela linguagem e pela dimensão crítica, não é de todo acessível ao jovens do ensino secundário, que dificilmente a percebem). Por outro, o Eça, o realista e o da crítica ao romantismo, acaba por assumir que nunca deixou (tal como o seu Carlos da Maia e amigo Ega) de ser um romântico, ele e os seus outrora rebeldes companheiros, que ironicamente se reuniam em jantares burgueses, no Tavares Rico, sob o epíteto dos "Vencidos da Vida".
Agora, não sei se, quando falaste da literatura portuguesa, só falavas da de época, ou à atual também. Julgo que os nosso escritores não ficam atrás da literatura que leio lá fora. Apenas se prende com uma questão de gosto, em termos de estilo. E de mundividência, em especial.
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Re: Literatura

Mensagempor Blackadder » sábado mar 21, 2026 10:14 pm

Obrigado!

A sensação que tenho é essa que ilustras bem. Referia-me mais aos do início do século, sim. Desconfio que vou gostar do Torga. Já me cruzei com umas coisas dele e de outros a escrever sobre ele.

Mas mesmo os mais contemporâneos, ainda não me cruzei com nada que me puxasse — bem, para isso era preciso ter tentado ler algum. Mas já tenho aí uns nomes em mente. Também nunca li poesia, mas comecei a ler os livros desta miúda e tenho gostado bastante.

Há uns tempos tentei ler um do Afonso Cruz, "Flores", que me irritou muito. Li 50 páginas e abandonei. Este fim-de-semana dei-lhe mais uma chance: li outras tantas e voltei a abandonar. Acho que vou manter este esquema até o acabar. Irrita-me porque podia ser bom e não é! Depois fui ver a cadência com que ele publica e percebi porquê.

Já me têm falado bem do Gonçalo M. Tavares. Tenho curiosidade e hei-de experimentar.

Mas sim, quero ver se ganho coragem para pegar nos Eças e nessa gente. Por um lado, para conhecer melhor este país e a sua história e cultura — que acho que não me ficou quase nada da escola. E por outro porque preciso de reaprender a escrever — mais a parte da pontuação e isso — porque, por motivos que desconheço, grande parte dos autores que tendo a ler, pelo menos ultimamente, é muito "criativa" no que respeita à sintaxe e à pontuação. Então dou por mim a escrever frases que podiam ser divididas em dez ou quinze. (o que ponho aqui no forum não conta; isto é mais vomitar para o teclado; não desfazendo das vossas ilustres pessoas, claro)
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Re: Literatura

Mensagempor aetheria » sábado mar 21, 2026 11:40 pm

Bem, eu li o Flores, sei que na altura gostei, mas não me marcou, pois não lembro nada!... Mas isso nem será problema só do livro, acho que ando a perder capacidade de reter coisas nos últimos tempos, julgo que é o excesso de estímulos: muita música, muitos filmes, muitas séries. Consumo tudo rápido. Tenho mais presente coisas que li há mais tempo....
Como, do Afonso Cruz, que me divertiu, o Jesus Cristo bebia Cerveja, ou a Carne de Deus. Estes são leves, irónicos, divertidos. Depois enveredou por algo mais sério , sóbrio. Mas achei original o A boneca de Kokoshka, ou lá como se escreve.
Do Valter Hugo Mãe gostei de uma trilogia. Muito. Não aparece indicada como tal, mas é -o à sua maneira: O remorso de Baltasar Serapião, o Apocalipse dos Trabalhadores, e a Máquina de Fazer Espanhóis. Falavas da "criatividade" na escrita. Bem, o Serapião tem-na muito. Acho que foi uma maneira de se afirmar, já tem uns bons anos, o livro. Mas o que me impressionou foi a narrativa... nunca li nada sobre o amor tão violento. Os três livros abordam o amor e a relação, em três idades e em três tempos: juventude, idade adulta e velhice; mas o primeiro na idade média, o do meio no nosso tempo, o terceiro na primeira metade do século XX, julgo. Na altura em que os li, tocaram-me. Já li outros, mas nunca mais voltou a atingir aquele efeito. Tenho outros cá, dele, por ler. Nomeadamente, o Desumanização. O tema acaba por me incomodar e nunca estou preparada para ele. Curiosamente, há poucas semanas vi um filme documentário (até está bem interessante) sobre este livro, e a estadia do VHM na Islândia para o escrever, entre outras viagens posteriores. Foi uma antestreia no Correntes da Escrita. Não tarda estará nos cinemas.
O José Luís Peixoto também tem coisas que me tocaram muito. Outras nem tanto e outras tenho pendentes (tá visto o perfil).
O último, português, que foi um murro no estômago foi o Misericórdia, da Lídia Jorge. A delicadeza e a violência como fala na velhice. Acho que tocará mais quem tenha pais idosos, ou se confronta com o seu próprio envelhecimento... Fez-me pensar em muitas coisas. Achei-o belíssimo.
Do Gonçalo M.Tavares (também tenho alguns livros em espera), o que mais me marcou foi o Ensinar a rezar na era da técnica. Também li o Cabeça, Cão e não sei que mais. Ele tem uma profundidade de pensamento e uma escrita conceptualista que nos desafia a todo o momento. E surpreende. Não é leitura lúdica, é densa, implacável. É a diferença entre beber uma bejeca ou um vinho encorpado, daqueles que parece que se mastigam :lol: não me espantaria se ganhasse um Nobel.
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Re: Literatura

Mensagempor Blackadder » quarta mar 25, 2026 7:57 pm

Não tenho grande interesse/curiosidade em ler a ficção do Murakami [talvez um dia pegue no "Norwegian Wood" para ver se se justifica o hype], simplesmente porque pessoas cuja opinião tenho em boa conta não são fãs e, por outro lado, aquelas cujas preferências não me dizem muito devoram tudo do homem. Contudo, já apanhei elementos do primeiro grupo, e por mais de uma vez, a recomendar o "What I Talk About When I Talk About Running". Como tendo a gostar de memoirs, e precisava de uma motivação extra para voltar a fazer exercício, pelo que resolvi lê-lo.
Spoiler: Mostrar
Despachei-o em três dias (é pequenito), e deve ter resultado porque ontem, finalmente, voltei a correr e hoje repeti a dose.

O livro é porreiro. Li-o em inglês, e achei que às vezes a tradução sofria uns tropeções. Mas dizem que o estilo do Murakami é meio estranho; pode ser isso. Não teria interesse nenhum se fosse objectivamente só sobre corrida. Mas acaba por ser um memoir onde ele examina a relação dele com a corrida, e como esta é essencial para ele continuar a escrever e a manter a cabeça em ordem, a centrar-se. Nas últimas 30-40 páginas começa a repetir-se um bocado, mas no geral vale a pena.


Entretanto sou capaz de começar "A Amiga Genial" (também para aferir o hype) no meu esforço para ler mais mulheres — e também porque começo a gostar muito de Itália; estive lá há um ano e meio, e já tinha estado antes, e a sensação que me dá é que é uma espécie de Portugal se fosse bom.
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Re: Literatura

Mensagempor aetheria » quarta mar 25, 2026 10:50 pm

Blackadder Escreveu:
Entretanto sou capaz de começar "A Amiga Genial" (também para aferir o hype)


Por acaso também ando com vontade de ler, para perceber o hype. Curiosamente, o título afastou-me sempre, mas lendo depois comentários, percebi que a autora é mais séria do que a lamechecice do título faz antever.
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Re: Literatura

Mensagempor Blackadder » quinta mar 26, 2026 12:52 pm

aetheria Escreveu:
Blackadder Escreveu:
Entretanto sou capaz de começar "A Amiga Genial" (também para aferir o hype)


Por acaso também ando com vontade de ler, para perceber o hype. Curiosamente, o título afastou-me sempre, mas lendo depois comentários, percebi que a autora é mais séria do que a lamechecice do título faz antever.


Ainda não li muito, mas, até agora, parece-me porreiro. Está-me a dar uma certa nostalgia.
Nunca pensei dizer isto, mas podia ser um bocadinho mais descritiva. Mas ainda só li 50 páginas, e este livro cobre a parte da infância; pode ser por isso, não sei, e talvez os da idade adulta sejam mais introspectivos.
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